Muito prazer, Yoga

Uma advertência e um alerta aos leitores: esse não é um texto goodvibes sobre Yoga e não esperem que eu use a palavra *gratidão*.

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Vai passar.
Já fazia tempo que eu queria fazer uma aula de Yoga, mas sempre esbarrava em coisas como tempo, mobilidade, preconceito e rancor. Tempo e a mobilidade são questões universais, mas eu alimentava um certo preconceito com a prática que sempre teve uma imagem muito higienista. Pessoas magras, brancas e loiras torcendo seus corpos enquanto sorriam plenas não é exatamente o retrato da diversidade. Por muito tempo, essas imagens alimentaram meu preconceito e rancor com a prática. Fora o discurso goodvibes eterno que um dia, outro dia, falo sobre isso. Mas consegui finalmente participar de uma aula de Yoga para Corredores.

A aula estava marcada para 9h e eu acordei às 8h34 com a mensagem de que minhas companheiras de equipe e aula estavam chegando pra me pegar. Tive longos cinco minutos para tomar banho, escovar os dentes e sair pra aula. Chegando no studio, meu foco estava muito bem definido: café. Quando entramos na sala, eu estava eufórica. Falando alto, tirando fotos e ansiosa de um jeito bem estranho. Digo, estranho considerando a forma como normalmente fico ansiosa. Deitamos no chão.

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Entrega
Deitar no chão é um momento de entrega muito grande. O tapete que te separa do piso é muito fino e estranhamente oferece mais conforto do que aparenta. Não sei dizer a sequência das posições mas, em cada uma delas, eu conseguia ouvir partes do meu corpo reagindo ao movimento. Sons vinham de toda parte da sala. Aparentemente, meu corpo não estava só. “I’m Alive!” me dizia uma ou outra parte de mim que, até então, permanecia intocada.  O meu começo foi bem tenso. Fiquei pensando se a minha barriga atrapalharia os movimentos mas me lembrei de algumas praticantes que me mostraram que há Yoga para todos corpos. Ter essas imagens na memória me deixou mais tranquila para iniciar a aula. Uma prova de que representatividade importa.

Os movimentos são diferentes do que eu imaginava. Por ter toda uma filosofia de vida em volta, sempre idealizei a Yoga como algo muito distante da realidade. Mas não é. A instrutora caminha pela sala, orienta os movimentos, as posturas, ajuda encaixando a fita, adapta a prática. Nada muito diferente do que acontece numa academia. Tudo muito diferente do que acontece numa academia. A calma chega em algum momento e é possível ouvir a nossa respiração. O foco no externo continuava. Eu ainda ouvia a rua, enxerguei os dedos dos meus pés se mexendo e pensei que fazer aquele movimento era algo tão automático e jamais parei pra pensar na sua relevância, olhei as plantas balançando com o vento, o teto, a forma como a luz do sol entrava no studio. Pude pensar em cada movimento e cada músculo e ainda assim enxergava o externo.

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Parece simples, mas é sobre equilíbrio
Um dos momentos mais intensos foi quando a instrutora propôs um movimento sobre equilíbrio. Talvez se eu estivesse na rua ou em outro ambiente, teria pedido pra fazer qualquer outra coisa. Tenho sérios problemas com equilíbrio. (Piada pronta não vale. Seja criativo). Quando me pedem que faça isso ou aquilo com esse fim, desisto. Há uma parte de mim que alimenta essa crença de que equilíbrio não é algo para mim. Mas esse exercício derrubou a crença. E quando falo em exercício não estou falando apenas do movimento, mas da minha capacidade de deixar uma crença interna de lado e dizer “ok, eu faço”. Para minha supresa, fiz e foi ótimo.

Apesar das minhas dificuldades iniciais com a Yoga, me senti muito bem. Fisicamente e emocionalmente. Essa é uma experiência que pretendo adotar para a vida. É claro que ter ido à aula não mudou alguns dos meus obstáculos como tempo e mobilidade, mas ter vivido essa experiência foi bacana o suficiente para querer repetir. É comprovado que a Yoga oferece muitos benefícios para o corpo. Para quem corre, é uma ajuda e tanto. Levanta a mão quem, como eu, simplesmente esquece de se alongar depois das aulas.

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Impactada
Yoga foi uma grata surpresa. Eu tinha a impressão que ia gostar mas, como disse antes, tinha muitos receios quanto à prática. Por uma hora, experimentei movimentos que sequer sabia que existiam e pude entender que é perfeitamente normal e aceitável desacelerar o movimento para ajustar a respiração. Essa uma hora me fez pensar sobre como respiro e como minha ansiedade se relaciona com a minha prática esportiva. Sobre as minhas cobranças e a falta de generosidade comigo. Quando a instrutora abriu a aula falando sobre não violência conosco e com os outros, foi um pequeno choque. Ser generoso e não violento com o outro é muito mais simples. Adoraria ter um final maravilhoso e radiante sobre como vi a luz ou como as coisas ficaram mais simples. Mas talvez seja essa a coisa legal da Yoga. É um momento em que nos dedicamos a nós mesmos e de maneira tão íntima que só pode resultar no ponto final e silêncio imediato.

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Namastê
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7 comentários Adicione o seu

  1. Fernanda Corrêa disse:

    Não pude deixar de me emocionar com seu texto, não tenho nem palavras para comentar, mas acho que é essa a parte mais legal da yoga, despertar para se conhecer. Não preciso nem dizer que amei seu relato! Acho q o bichinho do yoga te mordeu… gratidão pela presença em minha aula, e te espero nas próximas!!! Bj

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    1. Obrigada Fernanda. Nos vemos logo mais. 🙂

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  2. Michelle verginassi disse:

    Maravilhoso texto amiga…. eu consegui realmente sentir o q vc sentiu naquela aula… vc é únivcúnica Fa!😍

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  3. Natália disse:

    Seu texto é muito gostoso de ler. Consegui, com suas palavras, me transportar pra minha primeira vez na yoga, aquela sensação de estar no lugar errado, aquela ansiedade desconfortável sobre como seria. “Ai, não gosto de silêncio. Ai, não tenho elasticidade. Ai, a barriga.” E a mistura de paz e desconforto consigo mesma que você vai sentindo ao longo das posturas, pra chegar no final e concluir que aquela hora serviu pra você se perceber com um nível de detalhe e complexidade que raramente consegue. Perceber o ar entrando e saindo, o suor fazendo a palma da mão escorregar, o limite do alongamento, mas também os caminhos doidos e serenos que a cabeça faz entre um cachorro sentado e um namastê.

    Obrigada pelo texto, me levou longe… bem lá pra dentro de mim.

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  4. Quéroul Kess disse:

    Tive minha primeira experiência com yoga nesta semana. Muita coisa sobre pré-conceito com a prática e comigo também apareceu e desapareceu durante aquela hora. Me peguei atingindo o MOMENTO da yoga em minha vida: consegui respirar, me concentrar, me mover, doer e sentir sem espiar, sem desesperar, sem nem pensar. Acho que o nirvana chegará em breve. Vou continuar também.
    Namaskar, e boa sorte pra você. Ótimo texto, ótimo blog, obrigada!

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