Gorda Esporte Clube

Este é seu primeiro post, disse o WordPress.
Não, não é.  Precisamos colocar as coisas em perspectiva.

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O que a gente encontra às 6h da manhã

Meu primeiro post foi em 2001, quando a internet era mato e eu era ódio, rancor e nojo que sentia pelo meu corpo. A internet permitiu que as pessoas me vissem além ou antes do meu corpo. Quando se é gorda, seu corpo chega primeiro. A sua essência é completamente apagada e substituída pelo estigma. Lembro muito claramente da sensação de, finalmente, ser aceita.

GORDA.

Do meu primeiro post até agora, passaram-se 16 anos. Muita coisa mudou. Talvez eu não estivesse familiarizada com todos os lugares ou não soubessem onde estavam essas pessoas mas, naquela época, ninguém falava sobre aceitação ou auto-aceitação. Eu não tinha essa consciência, só a vergonha e a certeza de que meu corpo estava errado.

Quando as primeiras pessoas falaram sobre amor próprio, eu estava deprimida e tinha recém parido. Como sempre, achei que se emagrecesse, tudo ficaria bem. Só recentemente li a palavra gordofobia pela primeira vez.

Isso aconteceu numa época em que eu ainda mantinha vida em suspenso na expectativa da felicidade que o emagrecimento me traria. Mas, já fazia algum tempo, anos talvez, que eu me debatia com uma dúvida:

Emagrecer é um desejo genuíno ou uma vontade firmada pelos anos de pressão?

Sempre percebi a minha gordura como as minhas tatuagens, como parte de quem sou. Francamente, só me lembrava delas quando são apontadas ou causam (estranhamento, preconceito e questionamento). Mas ambas são parte de mim. Ao contrário do que dizem os médicos, nunca fiquei doente por causa da minha gordura. Mas a gordofobia destruiu minha saúde mental e me afastou de tudo que me era ligeiramente importante ou que viria a ser. Foi assim com o esporte.

Não. Eu não sei a escalação daquele time de basquete, o que é um impedimento (detesto futebol) ou nome daquela manobra. O que me diferencia é que nunca desejei ser platéia, mas protagonista. Porém, desde cedo, ficou evidente que o ambiente esportivo não era pra pessoas como eu. Gordas. Foi um processo e uma longa jornada para que eu entendesse que eu precisava tomar esse espaço pra mim e foi assim que cheguei onde estou agora: treinando para uma maratona.

Em 2018, completo 40 anos e vou comemorar correndo 42k. Na verdade, 42,195 km. Longa história, depois eu conto. A ideia já vinha crescendo na minha cabeça e uma voz me lembrava diariamente dela, mas eu precisava acreditar. Eu sequer conseguia dizer isso em voz alta. Houve “o momento” em que decidi aceitar meu corpo, me amar e abraçar o fato de que gosto muito de esportes. Foi quando me permiti ser a protagonista da minha vida.

O blog é um registro do treinamento para a maratona, da prática do boxe e da possibilidade de aprender ou experimentar outros esportes. É sobre a apropriação do ambiente esportivo contra a gordofobia e o machismo. Assim declaro abertos os trabalhos do Gorda Esporte Clube.

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